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A Salvadora

A Salvadora
Acordei meio zonzo naquele dia, não sabia se era devido as várias horas dormidas durante o dia, ou se era a falta de me alimentar adequadamente. Pouco importava.

Com um prazo apertado de meia hora, tomei uma ducha de agua fria, cantarolando alguma música animada afim de espantar o sono e talvez me animar um pouco, já que as horas seguintes seriam em uma noite movimentada com centenas de fregueses querendo ser atendidos de forma rápida, eficiente e prestativa. E eu deveria não só faze-lo, como prestar ajuda a meus colegas gerenciando-os. De toda forma ia ser péssimo dia, pensava eu, no máximo um sábado comum. Aliás, sempre odiei os sábados.

Assim que chego na Rua do Amanhecer, local de grande concentração de bares e restaurantes da cidade de Meia Ponte, meu semblante muda da água para o vinho e de um desanimado, passo a vigorar um olhar ríspido, determinado e concentrado.
– Sim esse é o Rodrigo de verdade quando encara o trabalho – Falava comigo mesmo afim de manter tal postura enquanto destrancava as portas do Pub Taverna 69. Aos poucos, meus colegas chegaram e um trabalho manual intenso se iniciava enquanto montávamos mesas, escolhíamos algumas faixas de Rock e começávamos a atender os primeiros turistas que ali se interessavam pelo o ambiente diferenciado.

Naquele dia tudo correu bem até por volta das 0hs. A casa estava cheia, a pouca chuva que caiu não atrapalhou os negócios e os clientes tinham o perfil que costumávamos a atender: casais em sua maioria homossexuais. Nada que me chamasse minha atenção.
Só que em algum momento após a virada do sábado para o domingo, uma mesa foi ocupada enquanto eu servia um chope, nela três mulheres se sentaram, servindo-se de cerveja mexicana. Sendo a mesa quadrada, do balcão eu conseguia ver duas das moças, mas havia uma de costas um pouco mais baixa, de cabelos longos escuros do qual pouco eu conseguia ver, mas nem me concentrei muito pois a casa ainda estava cheia.

Pouco tempo depois, dois rapazes que estavam em um bistrô próximo a janela resolveram tentar a sorte e investiram na mesa com as três moças, deram sorte, não eram como as lésbicas que ali frequentavam e logo os cinco ocupavam a mesma mesa, porém a mais baixinha de cabelos escuro ainda continuava em sua posição atual, conversando normalmente com suas amigas sem se encantar com a paquera dos dois indivíduos.

De longe notei que sua cerveja estava no fim, tentei pegar uma para reposição, mas antes que eu conseguisse chegar ao freezer um cliente me abordou afim de acertar a conta e no caixa permaneci por vários minutos. Já passava da 1h da manhã e o movimento caiu drasticamente, até que, enquanto eu fechava algumas contas no sistema, uma voz roubou minha concentração posicionando a minha frente com um simples “oi”.

– Pode pegar mais uma pra mim? – Dizia a moça do qual, até aquele momento, eu não havia visto o rosto ainda com uma long neck vazia nas mãos. Seus olhos eram profundos e me encaravam de forma diferente, seu rosto expressava um sorriso simples, mais divertido e atencioso. Eu estava um pouco pasmo, nem sei se respondi “sim” ou se já virei de costas me dirigindo as bebidas.
Quando voltei e lhe entreguei a cerveja, ela começou a fazer perguntas simples como qual o horário que fecharíamos e se havia algum local aberto até mais tarde. Meu inconsciente respondeu detalhadamente essas perguntas a ela, porém dentro de mim dúvidas constantes prosseguiam: quem é essa garota? Porque ela me olha assim? Ela é tão linda!

Fiquei meio sem jeito porque eu encarei ela mais do que deveria, mais do que profissionalmente eu faço. Ela voltou para junto de suas amigas, mas não ficou muito por ali já que as duas estavam se dando bem com os rapazes.
Quando voltou até o balcão, já estava de posse da comanda da mesa e pediu para que a conta fosse fechada, entre um olhar e outro trocados entre eu e ela, ela me perguntou sobre o local que eu indiquei que ficava aberto até mais tarde:
– Então, como é esse bar do Grande Índio que você me indicou?
– É um ótimo lugar! O melhor da rua paralela, o Índio é meu amigo, diga que eu os recomendei e ele vai lhe oferecer uma boa mesa e um bom atendimento.

Ela sorriu e comentou um pouco mais sobre a Taverna, dizendo que gostou do visual, das músicas e do atendimento. Eu fiquei um pouco sem jeito apesar dos elogios serem comuns, mas vindos dela pareciam ser ainda melhores. Após acertar a conta, quando ela estava se voltando a mesa, ela se vira e faz a última pergunta:
– Você vai pra lá quando fechar certo? Pro Grande Índio?
– Sim… provavelmente sim – Respondi com um nó na garganta e meio sem jeito. Eu realmente não tinha a mínima ideia de quem era aquela moça e muito menos das surpresas que aquela noite me traria.
Pouco mais de uma hora depois, quando peguei minha moto no estacionamento, pensei em ir direto para a casa, porém, um garçom que trabalhava ao lado me ligou avisando que estavam tomando uma no Grande Índio e que eu deveria ir para lá. E foi o que fiz, dei a volta na rua do Amanhecer e subi na paralela.

O Grande Índio tinha algumas mesas do lado de fora, onde se encontravam meus companheiros de trabalho e algumas mesas do lado de dentro onde provavelmente haviam algumas outras pessoas. Assim que desci o pessoal me cumprimentou, reservou um lugar para mim e me deram um copo de cerveja. Já um pouco altos demais e em disputas ferrenhas sobre assuntos mirabolantes, quase não se importaram comigo ali, por uma ou duas vezes tentei entrar no assunto, mas era censurado por um mais alcoolizado que invalidava minha opinião na base do grito. Típico de um bar depois das 2hs da manhã.

Quando tomei o segundo copo, já meio arrependido de ter aceitado o convite de estar ali, foi quando olhei para o lado e vi o índio de madeira que dava nome ao bar e foi então que me dei por fé que as pessoas sentadas lá dentro poderiam ser…
Me levantei rápido, deixando uma nota de 10 embaixo do copo, segui até dentro do bar e olhei na mesa a direita reconhecendo as duas moças que estavam há algumas horas atrás no Pub, assim como os dois rapazes que passaram a acompanha-las desde então, os cumprimentei sutilmente, enquanto meus olhos estavam à procura dela.

Foi quando vi meu amigo, o dono do bar, o Grande Índio voltando da dispensa e entregando um giz de cera a uma pessoa que estava agachada próxima a parede.

Após cumprimentar ele rapidamente, que voltava para trás do balcão, me dirigi até ela, que rabiscava a parede distraída, artificio exclusivo dali que permitia as pessoas deixarem sua marca.
– Nayara… então este é seu nome? – Falei ao tempo que me aproximava dela e ela deu um sorriso e se virou para mim.
– Então você veio, bem que imaginei que aqui seria sua parada após o trabalho, já que indicou com tanto afinco o local.
Neste momento me perdi por um instante admirando o seu belo rosto, estávamos em um local mais iluminado, diferente do pub onde apenas as luzes de neon transpareciam, os cabelos dos quais julguei serem morenos, eram um misto de loiro escuro e castanho claro, lindos e sedosos, amplificados por aquele olhar intenso e o leve e simples sorriso. Eu fiquei sem palavras por um instante, ela ainda se abaixou e voltou a escrever na parede a palavra “liberdade”, enquanto rapidamente eu pegava uma cerveja long neck no balcão e me voltava, escorado em uma mesa para conversar com ela.

Ela ficou ao meu lado e partilhou a cerveja comigo, perguntei de início se suas amigas não ficariam chateadas se ficássemos longe, ela respondeu que não haveria problemas, elas estavam distraídas demais para isso.
– “Liberdade” qual o significado de tal palavra? Perguntei olhando atentamente a seu rosto em busca de qualquer resposta facial.
– Não sei ao certo, gosto de como ela soa, eu poderia tatua-la em mim, mas não sei em si o seu real significado – respondia ela ao tempo que eu me aproximava um pouco mais deixando o espaço vazio entre nós quase inexistente.

Foi então que fomos interrompidos por um sujeito, que estava sentado no balcão e ouvia nossa conversa e do qual eu não havia percebido, era um conhecido meu e aparentemente já havia fechado sua cota de álcool naquele dia.
Cego de raiva, pouco ouvi o que ele disse a ela, mas não passava de uma frase pronta que poderia até fazer sentido, mas na real, era um convite esdrúxulo para eles dois fumarem um baseado e atingirem a tal “liberdade” proposta por ela.
Pensei em interromper de forma rude (assim como ele o fizera), mas me contive, pois quis ver como ela reagiria a tal chamado e já bolei mentalmente um plano de “fuga” caso ela aceita-se. Acreditem, já tive minha cota de vezes que perdi pessoas queridas por ser careta.

Foi nesse momento que seus olhos se voltaram a mim ao tempo que ela se desfez do convite daquele cidadão, que como um cachorro que apanhou se voltava com o rabo entre as pernas para seu lugar de origem.
Ela me comprou por completo naquele momento e voltou a estar tão próxima de mim que resolvi sussurrar em seu ouvido algo como “pensei que você aceitaria” e ela respondeu ao tempo que nos dois ríamos do ocorrido:
– Não é minha praia e não gosto de pessoas rudes.

Naquele momento minhas mãos já laçavam sua cinturam deixando meus lábios a alguns centímetros dos dela. E por um momento ela tentou recuar, apesar de seus olhos dizerem o contrário. Eu sabia, algo estava errado, tudo estava perfeito demais, deveria haver algum problema do qual eu não havia detectado. E infelizmente havia.
Ela levantou a mão direita frente a meu rosto e mostrou um anel dourado no dedo anelar. “Droga” já pensei mentalmente e sabia que as próximas palavras dela não seriam legais para mim.

– Eu gostaria muito de te beijar, mas estou noiva e me caso na semana seguinte… sequer eu planejava estar nessa cidade, mas meu carro apresentou um pequeno defeito na ignição enquanto passava por aqui e resolvi chamar minhas duas amigas para passarem essa noite comigo… desculpe.
Normalmente minha reação seria solta-la, deixar que ela seguisse para junto de suas amigas que já estavam se levantado afim de ir embora. Eu tomaria mais uma e seguiria para casa afim de dormir o quanto fosse necessário para esquecer aquele fim de noite.
Mas antes disso fiz uma pergunta ousada, ignorando todos princípios dos quais foi orientado:
– E onde está seu noivo nesse momento?
Percebi que ela se surpreendeu, sabia ela que não cabia a mim ser tão ousado e aparentemente não desistir devido a seu fortuno (ou infortúnio).
Após a pergunta, notei que seu olhar continuava colado no meu e isso me dava mais forças para continuar ali e mantive minha postura cética enquanto ela respondia:
– Está a trabalho longe daqui… – respondeu ela com um certo pesar. Não perguntei mais nada sobre isso desde então, não cabia a mim mais nada de sua vida até aquele momento.

Foi então que comecei a beijar os seus lábios e me perdi completamente da hora, local e condição que nos trazia até ali. Não existem muitas palavras para descrever tal sentimento, por mais que a língua portuguesa esteja entre as línguas românticas.
Aos poucos o bar se esvaziou e somente nós ficamos ali de pé nos beijando, ouvíamos ao fundo as pessoas se despedindo, mas não conseguíamos parar em momento algum, estávamos perdidos entre o tempo espaço ali e não tínhamos mais a noção de horas.
Foi quando uma das portas sanfonadas foram abaixadas pelo Grande Índio e então nos demos conta que ele queria fechar o local. Nos despedimos sem jeito, deixando claro que não era nossa intenção atrapalha-lo. Fomos de mãos dadas até o único carro que estava naquela rua deserta na mad**gada e escorados nele, voltamos a nos beijar.

Estava um pouco frio e isso impulsionava que nos dois comprimíssemos nossos corpos um ao outro, mesmo que de forma sutil. Não tive muita surpresa quando começou a cair uma chuva leve e fria sobre nós. Começamos a rir entre o beijo quando começamos a ficar molhados e sabíamos que aquele era o aviso dos céus para dar fim a tal aventura.

Eu pouco me importava em molhar, aliás, eu estava de moto e aquela situação era comum para um motociclista. Porém não gostaria de ver Nayara pegando um resfriado por minha conta, então a deixei que entrasse no carro, fechei a porta e fiquei olhando ela por mais alguns segundos pela janela do lado de fora, enquanto as gotas escorriam na mesma.
Voltei meio triste e sem sal para onde estava minha moto, sozinha de frente ao bar, peguei o capacete e as chaves do bolso encharcado e já sentia meu coração se enchendo de saudades por aquilo que não me pertencia… eu queria fazer algo ousado (ou mais ousado) mas já sabia que aquele era o meu limite e quando me virei para montar a moto, notei que uma pessoa estava aminha frente, toda molhada e com aquele belo sorriso no rosto:
– A ignição… não funciona. Pode me dar uma carona?

Entreguei o capacete a ela, mas não antes sem lhe roubar um beijo e ela subiu na garupa da moto.

Fim da parte 1 😉

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